The Last of US Parte II
Minha Experiência com The Last of Us Part II: A Perfeição Mecânica e a Ruína de um Protagonista
Escrever sobre The Last of Us Part II é caminhar em um terreno minado de emoções conflitantes. Como jogador, terminei a jornada dividido entre o deslumbre técnico absoluto e uma profunda frustração narrativa. De um lado, o jogo entrega uma das melhores experiências de jogabilidade da geração; de outro, toma decisões criativas que, para mim, desfiguraram a essência de um dos personagens mais marcantes da história dos videogames.
O Ápice da Jogabilidade Survival Horror
Se formos analisar estritamente o ato de jogar, The Last of Us Part II é uma obra-prima indiscutível. A evolução mecânica em relação ao primeiro jogo é impressionante. O combate tem um peso visceral que poucos títulos conseguem replicar; cada tiro, cada golpe de cano e cada esquiva parecem reais e desesperadores.
A adição dos botões de esquiva e de deitar no chão (prone) mudou completamente a dinâmica do stealth. A sensação de rastejar pela grama alta, ouvindo os assobios ameaçadores dos Seraphitas ou o eco dos estalos dos Infectados, gera uma tensão sufocante. A inteligência artificial dos inimigos foi refinada de uma forma assustadora: eles se comunicam, chamam uns aos outros pelos nomes e reagem com verdadeiro horror ao encontrar o cadáver de um aliado. O loop de jogabilidade — explorar, coletar recursos escassos, planejar a abordagem e executar com precisão — funciona perfeitamente e dita um ritmo impecável. Nesse aspecto, a Naughty Dog entregou a excelência.
A Desconstrução Contraditória de Joel Miller
No entanto, onde o jogo brilha em jogabilidade, ele falha gravemente, a meu ver, na consistência de seu roteiro, especificamente na forma como tratou Joel.
A grande crítica que faço à narrativa é a mudança drástica e contraditória na personalidade de Joel entre o primeiro e o segundo jogo. Em The Last of Us, fomos apresentados a um homem moldado pelo trauma e pela sobrevivência extrema por vinte anos. Joel era alguém que questionava e desconfiava até da própria sombra.
Para entender o tamanho da minha frustração, basta lembrar de como o universo dele funcionava. No primeiro jogo, quando Joel e Ellie encontram Bill — alguém que já conhecia Joel e tinha uma dívida com ele —, qual é a reação de Bill logo após ajudá-los a sobreviver? Ele coloca Joel de joelhos, o algema em um cano e o revista. A confiança no mundo pós-apocalíptico só vem depois da confirmação absoluta de segurança. O próprio Joel ensinou a Ellie a nunca abaixar a guarda, sacando instantaneamente que uma suposta vítima na estrada em Pittsburgh era, na verdade, uma emboscada de caçadores.
Em Part II, porém, parece que fomos apresentados a outra pessoa usando o nome de Joel. Diante de um grupo de desconhecidos fortemente armados nos arredores de Jackson, o homem que sobreviveu ao inferno sendo o predador mais astuto simplesmente esquece duas décadas de instinto de sobrevivência. Ele não apenas salva Abby sem hesitar, como entra voluntariamente no covil do grupo dela, desarma-se psicologicamente e deixa que Tommy revele seus nomes reais para completos estranhos.
A justificativa de que "Joel amoleceu após quatro anos de paz em Jackson" não me convence. Um sobrevivente calejado como ele não perde a paranoia neurológica que o manteve vivo por tanto tempo, especialmente sabendo o peso dos segredos e dos inimigos que acumulou nas costas após o massacre no hospital dos Vaga-lumes.
Conclusão
The Last of Us Part II continua sendo um jogo que recomendo fortemente pela sua jogabilidade excelente, direção de arte soberba e design de som imersivo. É um deleite mecânico. Porém, para mim, o roteiro precisou forçar uma conveniência narrativa incômoda, sacrificando a inteligência tática e a essência desconfiada do Joel que aprendemos a respeitar, apenas para fazer a engrenagem da vingança de Abby girar. Uma obra-prima técnica, mas com uma escolha de roteiro que ainda me deixa um gosto amargo na boca.